quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Encontro com a Trupe Lona Preta.


Na segunda-feira 13, de outubro, o pessoal do Não Consta no Mapa e mais alguns parceiros convidados foram até o Jardim Guaraú, para encontrar-se com a Trupe Lona Preta.
Foi uma oportunidade para a troca de experiências, e para o aprofundamento de ideias sobre nossos trabalhos. O Lona Preta vem realizando pesquisas e montando peças teatrais para serem apresentadas, principalmente, para o público das ocupações por moradia.
Foram relatados causos e colocadas opiniões diversas. Tratamos desde questões relacionadas à poética, técnicas cênicas e dramatúrgicas, até análises sobre as atuações dos movimentos e as vidas das pessoas necessitadas de moradia.
Com esse encontro, pudemos dar continuidade às atividades de trocas com coletivos, o que é uma das intenções do Coletivo Território B desde o início do projeto.


segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Mar à vista

Mar à vista.

O projeto “Não Consta no Mapa” começou, oficialmente, num memorável encontro, a Oficina de Teatro do Oprimido que aconteceu no Centro Cultural Ocupação São João, que fica dentro dessa ocupação. Tínhamos um cronograma e ficamos empolgados com as participações que estavam ocorrendo. Sabíamos que, devido ao caráter aberto do projeto, que combina criação coletiva, intervenção, processos abertos a outros coletivos etc., tudo deveria ser constantemente revisto. Um dos fatores que também pesava muito para essa necessidade de revisão constante era o fato de estarmos trabalhando com pessoas e em locais em uma situação de insegurança, pois a reintegração de posse é uma assombração constante junto a uns e outras. De fato, na prática, tivemos que lidar mais de uma vez com isso, quando alguns de nossos planos ou ações foram impedidos ou transformados por força de acontecimentos dessa natureza… e de outras naturezas que não esperávamos!

O que ocorreu comigo, desde o começo do projeto até agora, e que durante os dois primeiros meses me colocou num estado de atordoamento (permanecer dois meses atordoado foi uma experiência exaustiva) foi que a cada semana, toda a minha percepção da problemática da luta por moradia e a minha visão da cidade de São Paulo mudavam muito. Camadas diferentes se revelavam, outras lógicas, outros modos de interpretrar, e até mesmo a capacidade de enxergar coisas até então invisíveis para mim.

Um dos pontos mais importantes nesse processo é o que se refere aos movimentos por moradia. O que são esses movimentos? Como eles acontecem? Ao penetrar no assunto, descobríamos que, além das visões diferentes e divergentes que as pessoas em torno das ocupações possuem, dentro dos movimentos existe um universo complexo e surpreendente. São muitos movimentos diferentes, alguns saídos de outros, alguns juntados com outros, com estratégias diferentes para conquistar realizações de tipos diferentes também. Estão todos lutando por moradia, mas, por exemplo, se se trata de periferia, é muito diferente de quem pleiteia um edifício já existente no centro. E o prédio no centro, no mais das vezes, não é o objetivo final, mas uma fase da luta, quando o movimento usa a ocupação de um prédio abandonado no centro para pressionar o governo a construir moradia popular na periferia.

Identificamos métodos diferentes de luta, e maneiras diferentes de se engajar, por parte dos militantes e ocupantes. Conversando, ouvimos histórias. Essas conversas, geralmente em visitas a ocupações, somaram-se a experiências nossas na Ocupação São João (intervenções, a continuidade das oficinas de Teatro do Oprimido e a mera presença constante na ocupação), e essa soma paulatinamente acrescentou perspectivas, que vinham do dia a dia e dos sentimentos de indivíduos, por sua vez muito diferentes do que podíamos ver, quando pensávamos sobre os movimentos e suas entranhas políticas. Nessas histórias e experiências surgiram as pessoas, com muitas particularidades. Elas nos trouxeram críticas e elogios aos movimentos que eram para nós verdadeiras novas informações. Havia desde a pessoa que suportava o movimento, porque não conseguia pensar em outra maneira de finalmente conseguir sua casa, até a pessoa que decididamente abraçava o “método” da ocupação como uma causa social, uma forma de vida, e que com muito orgulho tinha aprendido isso dos pais e já o ensinava aos filhos (e isso independentemente de estar militando ou não num movimento específico, ou de já ter conquistado a sua própria casa, indo viver na ocupação para ajudar na luta coletiva).

Chegamos aos poucos no ponto de olhar para essa miríade de realidades e verificar que o que antes era um espaço escondido e apenas entrevisto, era um mar. No interior das ocupações acontecem histórias que carregam um colorido próprio desta situação. Tudo o que existe “fora”, como violências domésticas, machismo, homofobia; divergências políticas; romances, amizades; etc.; também existe “dentro” das ocupações, mas elas acabam revelando uma construção cultural própria do ambiente em que ocorrem, misturando-se a outras problemáticas e experiências, como as diferenças de participação (aquele que luta e aquele que aproveita a luta do outro, por necessidade, ou por malandragem), os exercícios democráticos ou de criação coletiva (assembléias, festas, mutirões etc.) e a ameaça constante de reintegração de posse. Essa coloração própria é uma cultura, uma invenção local mediante uma realidade local.

Não temos a intenção de realizar um trabalho de pesquisa antropológica, mas são antropológicas várias das nossas buscas. Esse aspecto cultural nos animou desde a escritura do projeto, e antes disso. Nossa tentativa de olhar para um espaço e ver nele o que há de banal, ou seja, o território enquanto possibilidade em aberto pelo uso humano, e podermos assim fazer uma leitura crítica da normatização dos territórios, poder recriá-los (no nosso caso, principalmente recriá-los artisticamente, mas não só) e ter nossas percepções ampliadas pela infinidade de possibilidades de jogo no espaço, tudo isso inclui a cultura, a invenção da vida de quem está lá naquele espaço (seja qual for) onde nos demorarmos e para onde dirigimos nosso olhar. Ao perceber a vida das pessoas, dentro das ocupações, ou na luta por moradia, como cultura, sinto a possibilidade de participar, como artista, dessa elaboração e mesmo dessa luta. Não é pouca coisa; para mim pelo menos, uma vez que sei que para os movimentos, seus próprios métodos são prioridade, e para as pessoas e núcleos familiares sem teto, a conquista de um teto é a prioridade.

No entanto, essa cultura existe, e não podemos saber, ainda, onde um aprofundamento e aclaramento dessa cultura, e os desdobramentos dessa experiência, poderia nos levar. Estamos aqui pra isso. Estamos diante de um mar. E o começo do projeto, que já conta com uma grande gama de ações e que pretendemos relatar neste blog com mais detalhes, mais que um começo, é uma chegada em um lugar que já existia. Que venham as transformações!

Texto de Luciano Carvalho, músico e ator, membro do Coletivo Território B.

sábado, 27 de setembro de 2014

Batatinha frita, 1, 2, 3

     (Mildo Ferreira é para nós um grande parceiro. Morador participativo do movimento na Ocupação São João, é um artista, um compositor, e traz sempre uma cor humana muito viva em sua participação no processo de luta por moradia. Sua acolhida em relação à nossa presença na Ocupação foi muito importante para nós, e assim que foi possível, ele ingressou no nosso primeiro ciclo de trabalho, a Oficina de Teatro do Oprimido, que realizamos nos dois primeiros meses do projeto Não Consta no Mapa, em parceria com o Centro Cultural Ocupação São João, do qual o Mildo é um intenso colaborador. A oficina ocorreu dentro mesmo da Ocupação. É com muito prazer que reproduzimos aqui o texto que ele escreveu sobre essa experiência.)




Batatinha frita, 1, 2, 3...

Mildo Ferreira

      Inicialmente tive dificuldades de entender até aonde chegaríamos, mas aos poucos foram se encaixando as peças e comecei a entender a atividades do Teatro do Oprimido. Essa atividade, que se constitui a partir das experiências pessoais de cada indivíduo, envolveu crianças, adolescentes e adultos, os quais são diretores de teatro, atores, artistas plásticos, estudantes, operários, entre outros.

     As atividades foram desenvolvidas através dos jogos do Teatro do Oprimido e aos poucos construindo as cenas. Durante os exercícios dos jogos passados pelo prof. Armindo, foi desconstruída a questão hierárquica de que a criança e adultos não possam interagir no mesmo mundo; exemplo disso foi passado na própria construção da peça, apresentando resultados que possivelmente partiram da relação, não de subordinação, mas sim, convivência e respeito com o outro, levando à construção de vínculos.

     Durante os encontros, também pôde se contar com interação, através de 2 estrangeiros Argentinos, apesar das limitações através da linguagem, mas mesmo assim o contato foi positivo, fato notório entre as crianças.

     Vale comentar que a cada Encontro eram entregues dois cadernos, sendo esses um de poesia e o outro com olhar técnico, os quais eram entregues a alguns participantes, e no início do próximo encontro eram apresentados ao grupo.

      A construção...

     A peça teatral se deu a partir das experiências de repressão vividas pelas crianças no ambiente escolar, apresentadas através dos personagens: professores, diretores, supervisoras, faxineiras, alunos e os personagens imaginários, o relógio e a máquina, a qual levantava a questão dos sonhos profissionais de cada indivíduo que em sua maioria não se concretiza devido a atual forma de sistema, “o capitalista”.

      A apresentação...
 
     Ocorreu na rua, na Avenida São João próximo ao nº 588, e entre os presentes estavam pais, moradores da Ocupação, amigos e curiosos.
     Após a apresentação houve a participação da plateia, a qual interveio no funcionamento da máquina, com intuito de dissolver a alienação dos personagens.
     A apresentação do teatro do oprimido em alguns momentos fez o indivíduo repensar a sua relação mediante a sociedade e construir uma consciência colocando claramente quem é o opressor e o oprimido; assim concluí que a experiência foi avassaladora, direcionando caminhos possíveis para a dissolução da real situação, construindo assim uma consciência coletiva.
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Acrescentamos aqui o link de uma filmagem feita por uma das pessoas que estavam assistindo a essa apresentação:

https://www.youtube.com/watch?v=NxregX3ZnZg

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sábado, 6 de setembro de 2014

Quando entrou setembro.

    No dia primeiro de setembro, o Coletivo Território B realizou um exercício de intervenção, contando com a participação de dois moradores da Ocupação São João, nas calçadas da Avenida São João e da Rua Conselheiro Crispiniano. Os interventores estavam com suas bocas lacradas, e carregavam cinco bastões, uma corda e uma lona, com o quê montavam uma pequena barraca em algum local. Usando gizes, e juntamente com os passantes, deixavam espalhados desenhos, frases, palavras soltas, enfim, suas participações que ficariam no local após a retirada do barraco, que só acontecia quando um dos interventores caía "morto" na calçada. A ação durou cerca de uma hora. Naturalmente, todas as regras da intervenção foram quebradas ao longo da ação, tanto por pessoas de fora como por pessoas de dentro.